20.8.06

Acolher... Se permitir...

Eu ia comentar o post da Glau (abaixo), e também faz um bom tempo que não venho até aqui para escrever algo. Não que o post dela não mereça ser comentado, longe disso, mas interessante que foi justamente este assunto que abordei em um e-mail que acabei de enviar para o nosso grupo.

Falando sobre a vinda do meu Natan e de como as coisas aconteceram e acontecem a partir de então, eu muito reflito. Primeiro de tudo, meu filho está comigo há quase seis meses e a sensação que temos é que ele sempre esteve aqui... interessante isso! Mais interessante ainda é o fato dos nossos familiares sentirem a mesma coisa (minha mãe, minha irmã, enfim...).

Às vezes, algumas pessoas curiosas me perguntam porque decidimos adotar uma criança mais velha e eu respondo "Não decidimos!"... rs. Se eu disser que foi uma "decisão" nossa, para mim soaria como se nós, os adultos, fôssemos dotados de plenos poderes em relação aos acontecimentos, ou seja, tivéssemos controle sobre tudo e todos. Conosco não foi assim! A medida que abríamos a nossa mente e coração para a adoção, pensávamos em um bebezinho, indefeso, carente, frágil. Mas, quando recebemos a notícia de um bebezão de cinco anos de idade, eu parei. Fiquei muda! Fiquei dormente! Meus batimentos cardíacos pareciam mais uma bateria de escola de samba... E em fração de segundo eu pensei comigo mesma... "É ele".

Como bem disse a Gláucia, a gente não ouve sininhos, sinetas, ou o mundo passa a ser cor-de-rosa.... ou então parece que você está vivendo um conto de fadas. Pelo menos eu não senti isso não... Ao mesmo tempo que me sentia feliz, um desespero aterrador tomou conta de mim, fiquei nervosa, agitada e em minha mente tive dúvidas em meio aos milhares de porquês que desfilavam na minha frente.

Quando eu vi o Natan pela primeira vez, eu ainda estava neste clima tenso dentro de mim. Fiquei tão atônita que não sabia o que dizer. Apenas o segurei no meu colo e o levei para o carro, e meu marido chorava disfarçadamente num cantinho, enquanto minha cunhada nos acompanhava. Não houve mágica! Aquele momento, pra mim, era um momento de transição, "antes do Natan e depois do Natan", minha vida sem ele e minha vida com ele... Agora eu era mãe, uma figura que eu não havia sido antes. Que medo!

Mas então, fui presenciando a "mágica" acontecer. Diária e constantemente a mágica de um compromisso selado, de um amor construído... a mágica do acolhimento. Eu o acolhi e ele me acolheu numa cumplicidade única que só as mães experimentam com seus filhos... Uma cumplicidade que fala a língua do olhar. A mágica vem acontecendo e se torna ainda mais evidente quando o meu filho me diz simplesmente que me ama, ou canta uma musiquinha pra mim. Hoje, quando começou a chover e a esfriar, ele disse assim "Mamãe é o sol, papai é a chuva"... rs e, na linguagem dele eu entendi perfeitamente. Quando o levo para a escola, nós vamos conversando e ele sempre me faz muitas perguntas, dia desses ele me perguntou por que chovia, por que não podia apenas fazer sol. E eu respondi: "Ora, e como as plantas vão beber água? Meu filho, tem hora pra chover e hora pra fazer sol, não haveria harmonia (ele entende o que é harmonia) se só chovesse ou só fizesse calor, nós e todos os seres vivos precisamos das duas coisas, entende?". Como pode uma criança tão pequena compreender a moral de tantas coisas?

Enfim, todos os dias tenho algo pra contar em relação ao nosso amor construído e mantido com sinceridade, mas, se eu não tivesse me permitido acolher um bebê de cinco anos jamais teria o privilégio de conviver com alguém tão especial. Na verdade, é difícil dizer o que ele é... é meu filho! Sempre meu! O que acrescentaria uma herança genética nisso? Não sei! Sinceramente, não sei se faria tanta diferença.

Natan é uma das poucas pessoas que me olham com sinceridade... Faz parte de uma minoria que nutre um amor sublime por mim... É uma criança bem humorada, que tem um dos sorrisos mais lindos que eu já vi nesta vida. Às vezes, sinto medo de não ser tudo de melhor pra ele, medo de decepcioná-lo, medo de errar. Mas seres humanos são assim, imperfeitos. Eu não o adotei, não o acolhi simplesmente, mas sim o amor e o desejo que ambos lançamos ao universo fez com que Deus nos acolhesse e unisse nesta causa.

Um grande beijo!
Mila Viegas

3 comentários:

CARLA disse...

Mila, não sei se voce vai ver este comentário, seu post já é antigo, mas voce descreve uma realidade que eu espero poder viver: encontrar minha filha (ou filho) e (RE)conhece-la (lo) pelo sorriso, olhar, enfim, espero essa empatia que voce descreve com seu menininho...
E por mais que eu me sinta ingenua nesta espera, seu relato me dá esperança que Deus tambem esteja arquitetando o nosso (RE)encontro.
Bjkas.

fabíola disse...

Eu não senti isso de que "é ele", qdo fui conhecer a criança que me indicaram. Qdo ouço esse relatos fico pensando se há algo de errado comigo... Estamos fazendo a aproximação com o menino (tem três anos) e tenho tentado ouvir meu coração, mas é difícil só ouvir relatos de que a pessoa tem certeza assim que conhece a criança.

Alexsandro Rodrigues disse...

Eu estou sofrendo muito, estamos conhecendo duas crianças, mas estamos com muito medo, esse relato, ajuda a entender as dificuldades... muito obrigado pelo relato....