19.12.07

A Cá me disse que este texto já foi publicado. Mas como eu sei que as pessoas nem sempre procuram as postagens antigas, vou de "vale a pena postar de novo".
A primeira vez que encontrei Maria Clara, minha filha, ela já estava irremediavelmente abraçada à Yara, minha esposa. Olhei aquelamenina negra de olhos espertos e não pude resistir: Criança não tem cor, tem sorriso. E o sorriso dessa menina me comoveu mais do que todos os outros.Na noite em que foi abandonada na porta de uma igreja, recém-nascida, e recolhida pelas irmãs do grupo de adoçãoTamina, na Bahia, o seu destino parecia ser igual ao de milhares de outras crianças que diariamente, vêem o pacto de felicidade que lhes deu a vida ser rompido da maneira mais cruel.No entanto, Maria Clara parece ter nascido predestinada. Os mais crentes diriam que o dedo de Deus deixou sua marca na menina em forma de um curioso sinal de nascença. Negra, Clara nasceu com uma manchinha branca na testa e,logo que a encontraram, as freiras batizaram-na com o mesmo nome da minha mãe. Coincidência ou deusdência? Eu acredito nas coincidências felizes, porque as infelizes a gente tem que esquecer.Montar uma casa, escrever um livro, adotar um filho... Maria Clara não saiu da minha barriga, mais entrou no meu coração, diz Yara para explicar o porquê da adoção.Na verdade, nós vimos na adoção uma forma de realização suprema do sentimento de paternidade e maternidade, pois implica uma opção muito sincera, na qual o sentimento de querer um filho é muito maior do que simplesmente ter esse filho. É difícil existir no mundo alguém com um amor maior do que o meu pela Clarinha,diz Yara.Infelizmente, para muitas pessoas, a adoção ainda é um tabu.Há mulheres que preferem passar por um sofrido processo de inseminação artificial a aceitar uma criança que não carregue a sua herança genética. Eu não hesitei em usar a mesma polêmica das modinhas e das paródias políticas que me tornaram famoso em todo oBrasil: Não há maldade pior do que deixar uma criança abandonada.Muitas mães que fazem questão de gerar seus próprios filhos acabam criando traficantes, assassinos ou coisa pior, já o Chaplin, por exemplo, foi criado na rua e se tornou um dos maiores gênios de todos os tempos. Geralmente, o filho adotivo é sempre o melhor, porque a relação surge de uma necessidade de ambas as partes e a educação é mais atenciosa.No Brasil, a burocracia torna oprocesso de adoção moroso. No meu caso, o fato de ser uma personalidade pública facilitou a adoção de Maria Clara. Logo que vimos, a levamos para casa e vivemos um período de adaptação de oitomeses, exigido pela lei. Só quando a Clarinha completou um ano, nós recebemos a posse oficial. Foi o documento mais importante que eu assinei na vida. Existem várias famílias que levam uma vida modesta,mais nem por isso deixam de adotar uma criança. Eu não estou no meu melhor momento econômico, mas isso não interferiu de forma alguma na decisão de adotar a Clarinha. Quem morre rico não tem imaginação. Juca Chaves

25.11.07

Existe fórmula mágica para lidar com a criança abusada?

Mais um texto da amiga Dani, respondendo como lidar com crianças que já sofreram traumas.
Cada caso é um caso e aflora de uma maneira, o importante na adolescência é falar sobre o que aconteceu. Se os pais não se sentem bem em tocar no tema sozinhos com a criança, buscar um profissional que intermedie a conversa. Há varias maneiras de tratar isso, mas não existe cura interna, o que existe é através da terapia amenizar as conseqüências que isso pode trazer para toda a vida. É terapia por toda a vida, pois cada experiência pode despertar sentimentos com relação ao trauma. E aos poucos a pessoa, adolescente e adulta vai aprendendo a lidar com essas emoções que parecem ter desaparecido, mas em verdade podem estar sempre dormindo. Abusos há de vários tipos e sempre tratá-los como tal, não generalizar e tratá-los todos da mesma maneira. Crianças muito pequenas que foram abusadas, geralmente são retraídas ou agressivas se tem certa consciência do ocorrido. Qdo esse vestígio de consciência não existe nesse momento, seguramente sairá à frente na adolescência através da conduta, ou ate mesmo pode chegar a lembrar o que aconteceu qdo era pequena, como uma espécie de imagem indefinida que busca a emoção do momento e pluft a coisa explode. O que fazer com a criança ou adolescente no dia a dia, depende muito de cada caso, e do tipo de abuso. Por exemplo. Existem crianças que foram abusadas sexualmente e não suportam ser tocadas, ou beijadas, ou algum tipo de carinho físico...esses casos são bem especiais pois a aproximação física deve ser muito devagar à medida que a terapia avançar, a confiança se estabelecer.
Por isso não existe uma receita para "como tratar uma criança no caso de abuso" pois cada caso é um caso. O que eu diria seria coisas muito gerais: buscar ajuda profissional, não evitar falar sobre o assunto, muito amor, muito carinho, e muita empatia, não ter medo de colocar limites por que a criança tem um trauma, pois isso é cultivar outro problema.
Criança ou adolescente abusado tem uma autoestima baixa, desconfia de todos, e tem uma visão de mundo ruim. É aí que se deve trabalhar, na autoestima e na visão de mundo. A família bem orientada consegue lidar com as situações, e consegue ajudar a criança ou adolescente a conviver e a se fortalecer para lidar com essas feridas que se fecham muito lentamente. Mas é como montar montanha russa, uma hora sobe outra hora desce, e a terapia e a família podem ajudar no processo interno que a pessoa passa para saber lidar com essas emoções. Tempo é o amigo intimo de cada pessoa e a família , mas pode se tornar inimigo se deixar ele passar sem tomar nenhuma atitude para ajudar ao abusado. Pois o que hoje são feridas com possibilidades de fechar-se, amanha podem tornar-se armas para ferir outras pessoas da mesma maneira ou até mesmo pior. Dentro desses dois extremos existe um presente que é determinante para êxito futuro em muitas áreas da vida. No dia a dia é basicamente fortalecer a autoestima da criança ou adolescente, ganhar sua confiança a ponto de poder afrontar o assunto de frente em algum momento. Qdo se pode falar abertamente sobre o que aconteceu, é sinal de que se busca fortalecer internamente ao extremo de maneira certa. O abuso se reflete de varias maneiras: agressividade, apatia, retraimento, ira... atitudes que refletem pouca personalidade, ou seja um adolescente que é convencido facilmente a qq coisa, um adulto complacente demais, inseguro demais, indeciso demais.
Quem tem medo de não saber lidar com a situação tem que investigar dentro de si mesmo por que esse medo, depois que chegar a conclusão bem clara do por que esse medo, então poderá ter uma idéia maior de suas limitações para lidar com certas situações. Às vezes queremos muito alguma coisa, mas essa coisa pode não ser pra nós. Me explico?! E isso não é vergonha pra ninguém. Cada pessoa é uma única, e seria muito chato o mundo se todas fossem iguais. Lembre de sua infância e de como seus cuidadores eram com você, e se vc se sente satisfeita com a segurança que eles te passaram, a educação que eles te deram, se sentiu amada e cuidada saberá como atuar com com qq criança e terá as ferramentas internas necessárias para ajudar a uma criança com traumas. Ter uma fortaleza interna é fundamental para lidar com crianças abusadas. Essa fortaleza vem das interpretações positivas de suas experiências de vida( ate do negativo saber tirar algo positivo), essas são as pessoas que conseguem lidar com crianças com traumas. Mas nem tudo se faz sozinho, e por isso hoje em dia já tem tantas áreas dedicadas à ajuda psicológica. Nem todo psicólogo é apropriado para lidar com certos"problemas" e por isso existe a vocação e as especializações. Fica sempre atenta a quem buscar, que títulos tem, que trajetória tem, que experiência tem.

2.11.07

Devolução da Criança

Amei este texto, da autoria da Dani, um membro do Orkut. O tópico da discussão é sobre uma moça de 24 anos, que hoje grávida de seu primeiro filho, considera a possibilidade de devolução de uma adolescente que ela adotou. Adaptei um pouco, mas acho que temos muito o que meditar sobre o que ela pondera.

Esse tipo de coisa acontece por que os adotantes não estão claros emocionalmente em sua motivação para adotar.
Idealizam demais a adoção como se fosse algo mágico. Ter filhos não é algo mágico, é uma realidade diária cheia de alegrias, tristezas e frustrações também, Seja ele filho bio ou adotado, é um ser humano totalmente independente com uma forma de ver o mundo única(ainda que grande parte dessa percepção leve a influencia dos cuidadores diretos).
Saber lidar com essas "frustrações" que ocorrem é que mora a diferença e a sanidade interna de uma pessoa, e sua maturidade emocional para saber fazer dessa "frustração" uma manivela forte para mudar a situação de maneira acertiva.
Creio que o que acontece com essa senhora não é diferente de muitos outros casos parecidos que vemos diariamente(infelizmente); pessoas com motivações internas "indefinidas" para adoção.
Qdo o assunto vira uma realidade percebem q não tinham idéia do que realmente é ter filhos; Não tinham idéia de muitos aspectos. Inclusive de suas próprias limitações para muitas coisas.
A adoção tardia não é para qq um. Adoção tardia é para quem realmente esta maduro para lidar com outro ser humano totalmente estranho,com uma super mochila de vida nas costas a ser compreendida, relevada e redireccionada. Quem opta por esse tipo de adoção deve ter um autoconhecimento grande, ter a sabedoria interna de ajudar-lo a integra-se a sua nova realidade pouco a pouco.
A adoção tardia é uma adoção especial cheia de outras possibilidades de situações que podem ou não dar-se, e ignorar essas possibilidades não é nada legal.
Mas creio que a situação vai muito mais longe, do que não estar "preparado" para essas possibilidades, creio que o problema esta realmente em saber internamente o que quer, o que pode ter, o que é possível que tenha, o que é adoção, qual a motivação verdadeira para dar-se essa adoção, e o mais importante na minha opinião "O momento de ter filhos" ainda q sejam biológicos em um momento pouco pensado, pouco planejado, pouco considerado em sua totalidade, traz consigo um "peso", ou seja, não estar minimamente preparado pode fazer essa maternidade algo difícil de lidar no dia a dia. Principalmente na hora que a criança vai crescendo e se demonstrando uma pessoa independente com seus próprios desejos, acertos e erros.
Talvez p essa senhora, o estar grávida nesse momento, represente a realização de uma sonho, e agora a menina "sobra" na concepção inconsciente, ou ate mesmo consciente, de uma pessoa que não "acolheu" com o coração a essa menina.
Situação difícil e dolorida, difícil de ajudar, mas creio que acudir uma terapia em família, e individualmente poderia ajudar sim.
Acredito fielmente que a mãe deve fazer uma terapia individual urgente, pois ela é quem não sabe lidar com o assunto, e as muitas emoções que estão surgindo com essa gravidez. Ela esta despejando na menina um peso enorme, e muito injusto.
A transformação hormonal que esta passando não justifica nada, pois apenas acentua o que já existia previamente em emoção.
Infelizmente casos assim ocorre mais vezes do que podemos imaginar, e o fim é quase sempre o mesmo, a devolução da criança.
Mais uma vivencia para que ela ponha dentro de sua pequena mochila da vida, de maneira internamente devastadora.

Amei! A primeira vista pode parecer que ela é contra... mas não é. Adoção tardia é maravilhosa, e todos só tem a ganhar com ela. O que precisa ficar bem claro, para que se evite situações muito tristes, é que esta criança tem um passado e isto precisa ser aceito. o ato de adoção não apaga automaticamente tudo o que ela viveu! Mas o carinho e o amor no dia a dia podem sim, transformar uma vida!

3.9.07

Permitir que a Criança Viva a Sua Infância

por Elvira Souza Lima


Podemos iniciar nossa conversa dizendo que toda criança tem direito a viver sua infância. Nesse período, a criança realiza inúmeras aprendizagens que servirão para toda a vida. Muitas delas se efetivam por meio de práticas culturais, que, por sua vez, desempenham papel central, e cabe não apenas à família, mas a vários setores da sociedade, garantir sua presença na vida das crianças.
Em seus primeiros anos de vida, a criança obtém duas conquistas importantes: andar e falar. O período que se segue a isso será marcado pelo desenvolvimento da função simbólica (falar, desenhar, imaginar...). As atividades que predominam nesse período são as que envolvem movimento e criação de significados, fazendo com que a criança se desenvolva como um ser de cultura.
E que atividades são essas? Desenhar, brincar de faz-de-conta, realizar brincadeiras infantis que envolvam personagens e ações imitativas, cantar, dançar, ouvir histórias, poesias e narrativas da cultura local. É muito importante para a criança a vivência das práticas culturais de sua comunidade e região, pois a elas estão ligadas a percepção de si mesma como parte de um grupo e a formação de sua identidade. A experiência com imagens e com sons é uma parte importante na educação da criança pequena, por isso toda criança precisa desenhar, cantar, ouvir música e brincar.
Em seu processo de desenvolvimento, a criança pequena desenha muito. Toda criança vai desenhar indo ou não à escola, ou seja, desenhar faz parte de ser criança. É muito importante que os adultos respeitem essa atividade, porque enquanto a criança está desenhando ela está aprendendo muitas coisas. Para nós, adultos, pode parecer que desenho não é uma coisa séria como aprender a escrever, mas é. O domínio da forma desenhada também é uma das bases do desenvolvimento da escrita.
Todo desenho tem uma ação: para a criança tem sempre uma história no desenho que ela faz. O desenho é uma narrativa: mesmo que para o adulto ele pareça uma representação estática, para a criança ele é ativo, dinâmico, tridimensional. Mesmo que a criança não fale nada enquanto estiver desenhando, ela está "pensando" no que desenha. Então, ao desenhar, a criança trabalha com sua imaginação, cria novas imagens, desenvolve sua memória, organiza sua experiência para compreendê-la. O ato de desenhar não é, simplesmente, uma atividade lúdica, ele é, também, ação de conhecimento. O desenho é, pois, parte constitutiva do processo de desenvolvimento da criança.
A música promove a comunicação entre as pessoas, provoca envolvimento emocional entre elas. Cantar, tocar um instrumento, ouvir música são atividades que fazem bem ao ser humano em qualquer idade. Na infância a música é mais importante ainda, pois contribui para o desenvolvimento da criança. As cantigas infantis possibilitam o desenvolvimento da memória auditiva, do ritmo e da melodia, com realizações que estarão envolvidas na apropriação da leitura e da escrita.
Nascida em uma cultura que valoriza tanto a música quanto a dança, a criança brasileira é exposta desde bebê a uma vivência musical variada. Do mesmo modo, a criança brasileira também tem experiências com a dança nas festas populares, na mídia, nos rituais das tribos, nas celebrações religiosas, nas festas e em outros eventos.
É muito importante que se valorize a vivência musical, criando situações em que a criança possa, diariamente, ter alguma atividade que envolva a música. Muitas das brincadeiras infantis já trazem essa experiência, o folclore brasileiro tem uma variedade muito grande de atividades que envolvem música.
Sabemos hoje que a música é importante no desenvolvimento do cérebro, traz muitos benefícios para as aprendizagens que a criança terá mais tarde, na escola.
Por exemplo, as músicas cantadas têm rimas. Ter sensibilidade à rima, sabe-se hoje, é um dos componentes essenciais para a aquisição da leitura. O que é ter sensibilidade à rima?
É saber reconhecer rimas e saber fazê-las, também.
Para a criança que se está constituindo como um ser da cultura, é fundamental entrar em contato constante com a música. Para a criança brasileira, a música é mais do que isso, é dialogar com o outro, é ser inserida na cultura de nosso país.
As brincadeiras infantis envolvem movimento. Muitas delas fazem com que a criança movimente seu corpo no espaço. Isso ajuda, por exemplo, a formar conceitos de localização no espaço, como acima/abaixo, dentro/fora, perto/longe.
Muitas brincadeiras trazem pequenas narrativas, que auxiliam no desenvolvimento da oralidade e do seqüenciamento de fatos, como a rosa juvenil [cantiga de roda sobre uma menina, Rosa, que é vítima de uma feiticeira e sobre o rei que irá desfazer o feitiço. Na brincadeira, as crianças formam a roda; a que vai para o centro será a Rosa, e outras duas, de fora da roda, serão a Feiticeira e o Rei. Seguindo as estrofes da música, cada criança deve agir de acordo com o seu personagem. Aquelas que estão na roda, devem girar e cantar ao redor da Rosa]. Todas envolvem a memória de movimentos seqüenciados em uma ordem constante. Por exemplo, lenço-atrás [brincadeira em que os participantes formam uma roda, em torno da qual um deles corre levando um lenço na mão e dizendo versos; o lenço deve ser deixado atrás de uma pessoa, que sairá da roda perseguindo o que a escolheu e tentando impedi-lo de ocupar o lugar deixado vago], coelhinho-sai-da-toca [cada participante senta em uma cadeira e o que comanda o jogo fica em pé. Quando ele gritar "Coelho sai da toca", todos devem mudar de lugar; inclusive o comandante deve se sentar. O que ficar de pé sai do jogo e uma cadeira é retirada].
Brincar é necessário para que a criança cresça saudável, não pode ser substituído por outro tipo de atividade. Um dos direitos mais fundamentais da infância é ter tempo para brincar e cabe aos adultos criarem essa possibilidade para toda e qualquer criança.
Ouvir histórias, ouvir e recitar poesias, parlendas [rima infantil usada em brincadeiras], conversar com outras crianças, ser ouvida pelo adulto são situações que todas as crianças devem ter continuamente. O folclore, as festas tradicionais, as celebrações são também fonte de ampliação da experiência, além de funcionar como oportunidades para a formação da identidade cultural.
O que foi colocado aqui é válido, igualmente, para as crianças que nascem com alguma diversidade biológica, ou seja, não ouvem, são cegas, possuem alguma síndrome (por exemplo, a síndrome de Down), têm algum impedimento por causa da condição de seu cérebro (paralisia cerebral, por exemplo). Para essas crianças, as atividades da infância são tão necessárias como para qualquer outra criança. Nesses casos, a sensibilidade dos adultos é muito importante, pois são eles que podem criar condições para que essas crianças brinquem, ouçam música, participem de atividades culturais e festas públicas, entre outras coisas.
Finalmente, toda criança tem o direito de conviver com as diferenças. A formação ética com respeito à diversidade cultural e à diversidade biológica é uma responsabilidade de todos na sociedade. Se a criança não conviver com as diferenças, ela não terá a possibilidade de ampliar sua experiência de vida e compreender que a diversidade é normal na nossa espécie.
"Toda criança tem o direito de conviver com as diferenças. A formação ética com respeito à diversidade cultural e à diversidade biológica é uma responsabilidade de todos na sociedade"

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Elvira Souza Lima é antropóloga, psicóloga e pesquisadora
associada à Universidade de Salamanca, na Espanha

23.8.07

A Adoção de Filhos

A Bíblia diz em Gálatas 3.23-4.7 que adoção é o meio através do qual os convertidos entram para a família de Deus. Em outra passagem, Romanos 8.15, vemos que recebemos o direito de chamarmos a Deus de "Papai" (Aba Pai).
Em Efésios 1.5 lemos que Deus nos predestinou para Ele através da adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, "segundo o beneplácito de sua vontade". Deus, ao nos colocar em sua família, está revelando uma graça infinitamente maior do que a de um casal ao abrir seu lar e trazer para ali uma criança que não nasceu deles.
O significado da nossa adoção na família de Deus é profundo demais, porém, na maioria das vezes não nos damos conta disso.
Ao sermos adotados por Deus passamos a ser irmãos e irmãs de Jesus Cristo, com um lugar garantido eternamente na família celestial!
1. UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL
Quase 32 anos já se passaram desde aquela tarde de junho quando voltamos da cidade de Londrina, no Estado do Paraná, com nossa filha Melinda em nossos braços. Lembro-me daquela experiência, nitidamente, como se fosse ontem! Ela contava dois meses de vida e em 24 horas tornou-se nossa filha! Que alegria aquela pequena paranaense trouxe à nossa casa! Hoje, Melinda está com 32 anos, formada, casada e já nos presenteou com um netinho, James Paul, que é a cara do vovô, lindo de morrer! Melinda ainda era pequena, quando Deus nos presenteou com nossa segunda filha, Márcia, uma linda paulistinha! Ela tinha sete meses e veio somar sua alegria, entusiasmo e, é claro, também trabalho à nossas vidas.
E os anos foram passando...
Melinda e Márcia já tinham feito 20 anos, estudavam nos Estados Unidos e nosso ninho estava vazio. Nessa época, meio de surpresa, Deus trouxe Annie para nossas vidas. Sabemos que há o momento certo para todas as coisas e essa terceira adoção foi uma verdadeira prova disso. Muitos anos antes, quando Annie tinha 3 anos de idade, já havíamos tentado adotá-la. Naquela época, após quase um ano de trabalho burocrático, com mais e mais papéis, o juiz não permitiu que a adotássemos. Tivemos, então, com dor no coração, de interromper o processo de adoção. Porém, no tempo de Deus, quando Annie já estava com 15 anos de idade, as portas se abriram milagrosamente e essa gauchinha veio trazer mais alegria e gratidão às nossas vidas. Hoje, Annie já se formou em Pedagogia, casou-se e está a caminho de nos presentear com mais um netinho (quando esse artigo for publicado, pode ser que eu já seja novamente vovô!). Já nos perguntaram que, se tivéssemos a oportunidade de voltar atrás no tempo e viver novamente, se incluiríamos a adoção em nossas vidas. A resposta foi um tremendo SIM, SEM DÚVIDA ALGUMA!
Tivemos tantas alegrias com nossas filhas, experiências preciosíssimas, que até hoje enriquecem nossas vidas, as quais não trocaríamos por nada neste mundo!
Não é preciso muito pata perceber que sou um grande defensor e propagador da adoção, não é? Sei de pessoas que possuem dúvidas e restrições sobre isso e não quero me fazer de surdo às experiências dolorosas que, muito possivelmente possam ter tido. Gostaria, porém, de compartilhar minhas idéias a esse respeito: a teoria e a prática.

2. INCENTIVO À ADOÇÃO
façamos de conta que estamos em uma varanda, sentados em confortáveis cadeiras e você pergunta minha opinião sobre adoção. Veja o que penso a respeito:

2.1 Princípio Bíblico
Primeiramente gostaria de dizer que a adoção é um precioso princípio bíblico. Somos filhos e filhas adotivos de Deus (predestinados para Ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo... Efésios 1.5). Como a adoção foi iniciada por Deus, quando a praticamos estamos não somente seguindo seu exemplo, mas também nos identificando com Ele.

2.2 Falando a Verdade Sei que existe um estigma pelo fato de uma pessoa ser filho(a) adotivo. Gostaria, no entanto, de reforçar que não há nenhuma vergonha nisso! Muito pelo contrário... Há pessoas que evitam a adoção pelo fato de um dia terem de contar ao filho que ele é adotivo. Não quero ser simplista, mas devemos orar, pedir a Deus oportunidades adequadas e contar que só não somos seus pais biológicos. Deus não teve vergonha de nos comunicar que somos seus filhos adotivos e Ele, certamente guiará nossa comunicação sobre isso. À medida que nossas filhas cresciam, e de acordo com a capacidade de compreensão de cada uma fomos explicando tudo a elas. Não escondemos absolutamente nada. Comunicamo-lhes nosso profundo desejo de termos filhos, a busca incessante da orientação de Deus e, finalmente, tosa a história de como chegaram até nós. Paralela à explicação da adoção, dissemos que também éramos filhos adotivos e herdeiros de Deus. Quando atingiram uma idade em que percebemos um maior amadurecimento nelas, as levamos para conhecer as cidades em que haviam nascido. A idade pode veriar, de acordo com a compreensão de cada criança. Os pais devem, no entanto, tomar cuidado para não usar isso como desculpa e adiar demais.
Minha esposa, Judith, teve uma experiência muito interessante, depois de já havermos contado a Márcia que a havíamos adotado:
"Márcia veio para mim com a pergunta:
- Mamães, eu sou órfã?
- Órfã... claro que não! Nos adotamos você!
- Quanto vocês pagaram por mim?
- Ora, meu benzinho, nós não compramos você!"
Os grandes olhos castanhos se tornaram maiores ainda, um bico se formou e ela, então, perguntou:
"- Então quer dizer que eu sou só alugada!!?"
Ela entendia o suficiente para saber que se a gente não compra uma casa, aluga. E a vantagem do aluguel é que sempre se pode trocar por uma casa melhor!
A angústia de seu coraçãozinho só foi aplacada com mais explicações sobre adoção e consecutivos beijos e abraços.

2.3 Não tenha medo das possíveis influências hereditárias de seus filhos
Muitas pessoas já me disseram que têm medo de adotar uma criança que tenha vindo de lares com pais alcoólatras, macumbeiros ou viciados. Dá para entender esse medo, mas isso não justifica. Precisamos lembrar que Deus é soberano em nossas vidas. Quando Márcia chegou à nossa família ela estava tão desnutrida, tão fraquinha, que não conseguia manter a cabecinha reta e não tinha forças nem para chorar! Os médicos do hospital onde a levamos tentaram nos desestimular de continuarmos o processo de adoção, e nos aconselharam a não nos apegarmos demais a ela pois provavelmente a perderíamos. havia, inclusive, suspeita de que ela tivesse alguma deficiência mental. Passamos por momentos de intensa luta interna sobre o que deveríamos fazer. Buscamos a vontade do Senhor, clamamos por sua orientação e finalmente sentimos a paz de Deus em nossos corações e que deveríamos ir em frente. Deus nos honrou e, com o passar do tempo ela evidenciou uma inteligência e perspicácia em níveis altíssimos!
Como cristãos é de nossa responsabilidade cuidar das viúvas e dos órfãos (Tiago 1.27). Existem muitas maneiras de fazermos isso e adoção, sem dúvida alguma, é uma delas!

CONCLUSÃO
Se Deus estiver dirigindo seu coração e sua mente à adoção, não fuja. Dê os passos necessários para que isso se concretize. Vá, porém, consciente de que há preços a serem pagos, entre eles, a longa burocracia para que uma adoção se concretize. As leis dessa área também podem ser alteradas, causando muitas vezes receio nas pessoas envolvidas. Tudo isso faz parte do processo. Devemos, no entanto, fazer tudo o que estiver ao nosso alcance e, acima de tudo, manter bem viva em nossos corações a certeza da soberania e do controle de Deus em nossas vidas.
Somos uma família feliz e normal. Passamos juntos alegrias e sofrimentos, buscando sempre a orientação de Deus.
Hoje, nossas filhas - Melinda, Márcia e Annie - estão respectivamente com 32, 30 e 25 anos de idade. Elas foram dadas a nós por Deus, só que nascidas de outros pais. Elas são nossa família, nosso tesouro e Judith e eu, não podemos sequer imaginar nossas vidas sem elas!

Leitura Diária:

Texto Básico
: Romanos 8.15

Segunda
: A família de Deus = Efésios 2
Terça: A família da mulher estéril = Salmo 113
Quarta: Adotados em Cristo = Gálatas 3.23-4.7
Quinta: Adoção abençoada = Êxodo 2.1-10
Sexta: A família cristã = Romanos 16.1-16
Sábado: Filhos e herdeiros = Romanos 8.12-17
Domingo: Um coro de aleluias = Salmo 148

Minha sugestão
pessoal = Salmo 37.4
(Adaptado da revista "Lar Cristão", edição 53)

25.7.07

COMBATE AO TRABALHO INFANTIL

Cliquem na imagem para ler o cartaz!

Vamos ajudar a garantir um futuro digno para nossas crianças!




22.7.07

ADOTE SEU FILHO


Hoje à tarde me deparei com a revista Pais e Filhos deste mês e me encantei com a capa. A manchete principal dizia: “Adote seu filho. O laço de amor que une pais e filhos, biológicos ou não, é construído no dia-a-dia”. Eu sempre pensei assim: FILHO, amado e reconhecido como tal, precisa ser adotado por seu pai e sua mãe, sejam estes biológicos ou não, ou a maternagem/paternagem não se efetiva. Quem não conhece mães biológicas que não adotaram seus filhos e hoje os arrasta pela vida como fardos ou simplesmente os largam por aí? Não tenho dúvidas que o que faz de uma mulher mãe é a construção de amor do dia a dia que ela estabelece com seu filho. Por isso, quando minha filha biológica chora querendo apenas o meu colo, sei que se após seu nascimento a tivessem entregue a outra mulher que a amasse com o amor de mãe que eu a amo, hoje seriam seus braços que ela pediria chorando. E isso não me diminui, pelo contrário, engrandece, pois mostra que minha filha me ama porque eu a conquistei no nosso dia-a-dia, e não por uma imposição da natureza. Bem, recomendo a leitura, e deixo aqui os trechos que mais gostei.


“A gente precisa adotar até mesmo aquele bebê que carregamos na barriga por nove meses”


“Acreditamos que, independentemente da forma com que a criança se torna parte da família, todo pai e toda mãe passam por um processo de aceitação e reconhecimento do filho. E a criança não é parte passiva da história, não. A maneira como ela se comporta contribui para fazer daquela mulher sua mãe e daquele homem seu pai. Uma relação de mão dupla. Mas que cabe a nós, adultos, entender e pilotar”


“Mas, óbvio, a fantasia não é como a realidade. E a criança imaginada nunca é exatamente igual à esperada pela família. O problema é que ela pode ser muito mais legal e a gente não estar vendo. Aí é que mora o problema: descobrir a beleza do diferente. Amar é isso. Entender que o filho é outra pessoa e não uma continuação simplificada e idealizada dos pais”


“‘Algumas pessoas ainda estão presas aos fatores genéticos. Mas não se pode colocar na conta da adoção dificuldades comuns a todas as crianças. Tanto filhos biológicos quanto adotivos são, inicialmente, estranhos para os pais. Só a convivência e a observação levarão ao conhecimento do outro’, afirma Luiz Schettini”

Texto escrito por Mirtes Cavalcante em 16.julho

25.6.07

Como reagir diante das mentiras

Crianças até 5 anos não conseguem separar a fantasia do real. Com o passar dos anos, a fantasia dá lugar à noção de realidade, sem desaparecer totalmente. A partir dos 6 anos, a criança ainda brinca com a sua imaginação e cria situações que não são reais, mas as invenções já são bem menores.
Se a criança na fase pré-escolar traz um material escolar estranho e diz que a amiguinha lhe deu de presente, confirme se a história é real. Se não, diga á criança que aquilo não é dela e que não lhe foi dado, fazendo-a devolver para a colega. A criança inventou uma história, mas ainda não sabe distinguir o real da fantasia, mas a verdade precisa ser mostrada.
Outros motivos que podem levar as crianças a mentir, é o exemplo dos pais. Se estes pais mentem, pedindo para o filho dizer que não está quando o telefone toca, por exemplo, a criança poderá achar natural mentir.
Broncas ou castigos podem levar a criança a mentir para não receber novamente esse tipo de punição. Mostrar os benefícios da verdade e os prejuízos que a mentira traz para a criança e para as outras pessoas é o melhor caminho.


Perna curta
A criança deve sentir que, ao contar a verdade, terá a admiração dos pais, professoras e amigos. E que mentira "tem perna curta" e será descoberta e desaprovada pelos mesmos.
Interrogatórios e pressão não levarão a criança a dizer a verdade. Pode ter efeito contrário.
Quando o comportamento mentiroso é muito freqüente ou se estende muito além dos 7 anos, uma ajuda profissional deverá ser procurada.

22.6.07

COMO PODEMOS AJUDAR NOSSOS FILHOS A DESENVOLVEREM SUA AUTO-ESTIMA?


Nesta semana tenho pensado bastante na questão da auto-estima de meus filhos.


Reavaliar e modificar algumas de nossas posturas em relação aos filhos não é algo simples, mas muito mais difícil é amenizarmos a influência e a interferência dos outros.


A sociedade valoriza apenas uma minoria com características específicas, que atenda a padrões eleitos de beleza e inteligência.


A escola é o laboratório da vida em sociedade e é bastante cruel com as crianças, que, por sua vez, não são seres angelicais como as pessoas costumam acreditar. Infelizmente, elas são produto e parte integrante da mesma sociedade impregnada de preconceitos.


Sou professora, mas reconheço que os professores, que também pertencem à mesma sociedade, não estão preparados para lidar com as diferenças. Os educadores deveriam ser os primeiros a se libertarem dos preconceitos e a dar bons exemplos, mas isso está longe ainda de acontecer.


O que, então, podemos fazer para ajudar nossos filhos a superarem todos esses obstáculos e a se amarem e se valorizarem apesar de tudo e de todos?


Sei que devemos amá-los incondicionalmente, incentivá-los, reconhecer suas habilidades e dialogar sempre. Mas o que mais podemos fazer? Gostaria que pudéssemos trocar algumas sugestões práticas.


14.6.07

Mitos x Nossas Verdades I: “Queremos viver todas as fases!”


As crianças maiores necessitam de muitos cuidados maternos e paternos. Temos muito a lhes ensinar, ainda que não sejam bebês. Algumas coisas nos são tão corriqueiras, parecem-nos tão comuns, que não imaginamos que sejam desconhecidas de nossos pequenos.


Meus filhos não conheciam muitas frutas e comidas. A Raquel, por exemplo, não conhecia pêra. Imaginem, então, frutas como figo, jabuticaba, kiwi e tantas outras que ela adora! Nunca vou me esquecer de uma de nossas primeiras refeições, um almoço simples (arroz, feijão, bife e farofa) e a frase dita com os olhinhos brilhando: “Nossa! Parece Natal!”


O primeiro mês com um “bebê” de 7 anos e 3 meses em casa? Não dormi direito nenhuma noite e acordei bem cedo até nos finais de semana. Qualquer barulhinho, eu pulava da cama para verificar se estava tudo bem.


Banhos e cuidados de higiene? Sim! Muitos banhos da mamãe e do papai nos bebês de 7 e 8 anos. Ensinamos a escovar os dentes direitinho e limpamos as bumbuns também!


Xixi na cama? Trocas noturnas? Chupeta e mamadeira? Sim! Passamos por tudo isso!


Escola? Vivemos tudo! A separação, a adaptação... Terminei de alfabetizar a Quel e estou alfabetizando o Davi. Acompanho diariamente a aprendizagem dos três.


Ensinei e ensino muitas brincadeiras, cantigas, histórias...


“Bebê” dodói? Sim! Já passei noites sem dormir, medindo febre, medicando, com o coração na mão.


Colinho? Canções de ninar? Sim, sim! Meus bebês adoram que a mamãe cante para eles dormirem!


Reunião familiar para conhecer e paparicar o novo bebê? Sim!


Vivemos a alegria de preparar o quarto, o enxoval, escolher brinquedos, livros, CD de cantigas...


Os primeiros passos? Sim! Nós vimos e sentimos intensamente os primeiros passos de nossos filhos em nossa direção. Bem, na verdade, quando nos vimos pela primeira vez como mãe e filho, o Davi veio correndo aos meus braços!


A primeira viagem, o primeiro desenho no cinema, a primeira peça teatral! Os olhinhos brilhando, o sorriso imenso ao avistarem o mar pela primeira vez! Tudo isso vivemos com nossos “bebês”!


E a emoção do chamamento tão esperado? Ah, sim! Fui privilegiada pois não tive de esperar meses e meses... no primeiro dia em nosso lar, eu ouvi: “Mamãe!”.

6.6.07

O AMOR É A MELHOR HERANÇA! CUIDE DAS CRIANÇAS!


Eu ainda não conhecia essa campanha, que foi veiculada no RS e em SC! Achei ma-ra-vi-lho-sa! Os vídeos são muito lindos! Vale a pena conferir:

http://www.clicrbs.com.br/cuidedascriancas/jsp/default.jsp?uf=1&local=1

“Maltratar as criancinhas
É coisa que não se faz
Mesmo sendo o Diabo
Disso nem eu sou capaz
Malvadeza com crianças
Não, não
Isso só pode ser coisa
Do tal do Bicho-Papão”
"Peraí, vai devagar
Cuido bem dos meus papõezinhos
Criança mal tratada
É coisa da Bruxa Malvada”
“Que calúnia
Minhas bruxinhas trato bem
É assim, nunca se esqueça
Isso só pode ser coisa
Da Mula-Sem-Cabeça”

“Que mentira deslavada
Minhas mulinhas-sem-cabeça
Sempre foram bem tratadas
Ai de quem se intrometa
Quem assusta as criancinhas
É o Boi-da-cara-Preta”
“Nem admito que falem
Que eu maltrato meus boizinhos
Eu sempre dei a eles
Muito amor e carinho”
“Não seja um monstro
Por isso vamos cantar
O AMOR É A MELHOR HERANÇA.
CUIDE DAS CRIANÇAS” (Site da RBS, 2003.)

30.5.07

O QUE VOCÊ ESPERA DE SEUS FILHOS?


Artigo de Ana Paula Viezzer
Acadêmica do 5º. Ano do Curso de Psicologia da UFPR, Bolsista PIBIC/CNPq


Certa vez, alguém colocou um patinho para que uma gata tomasse conta. Ele seguia sua mãe adotiva por toda parte. Um dia os dois foram parar diante de um lago. Imediatamente o patinho entrou na água, enquanto a gata gritava da margem:
- Saia daí! Você vai morrer afogado!
E o patinho respondeu:
- Não, mamãe. Descobri o que me faz bem, e sei que estou no meu ambiente. Vou continuar aqui, mesmo que a senhora não saiba o que significa um lago.


Esta pequena fábula nos faz refletir sobre a relação entre pais e filhos. Ao nascer uma criança, muitos pais e mães criam expectativas exageradas sobre o futuro da criança e sobre o que ela deve se tornar. Alguns idealizam até mesmo a profissão que o filho deveria escolher.
Idealizam a criança perfeita: aquela que brinca moderadamente para não sujar a roupa e sem fazer barulho para não atrapalhar os vizinhos; aquela que come um sorvete sem lambuzar a cara; aquela que acata absolutamente tudo o que os pais determinam (sua comida, suas roupas, seus brinquedos e brincadeiras) sem dizer nada. Para os pais seria muito cômodo ter um filho assim, que mais parece um pequeno adulto. Mas será que uma criança assim é feliz? Será que ela está desfrutando do “lago” de sua infância?
Estes pais e mães parecem não se permitir voltar à infância quando têm um filho. Pensam nas responsabilidades, mas é uma pena que esqueçam de brincar, voltar a ser criança e conseguir se colocar na posição de filho. E assim, esquecem também de exercitar a empatia* com seus filhos. Acreditam que seus filhos devem pensar como adultos e fazer as coisas como adultos e acabam por cometer um grande erro.
Uma criança pensa e age como criança, ou seja, ela vai brincar sem se preocupar se a roupa está sujando ou se sua gargalhada e cantoria estão atrapalhando alguém. Ela vai tomar sorvete ou comer chocolate se lambuzando, porque assim é mais gostoso e divertido. E ela não vai aceitar passivamente tudo o que lhe é imposto. Dizer não e dar ordens são duas coisas muito importantes que os pais devem fazer nos momentos adequados, mas às vezes os argumentos da criança podem ter fundamento e coerência, precisam ser ouvidos e respeitados. Ouvir a opinião de uma criança não diminuirá a sua autoridade ou controle, muito pelo contrário, isto os aproximará.
Pais e mães, Procurem exercitar a empatia! Procurem descobrir as coisas que seus filhos gostam, as preferências, os ambientes e atividades em que eles se sentem bem. Procurem descobrir o que todas estas coisas significam para eles. Ao descobrirem o “significado do lago” um laço afetivo muito mais forte os unirá! Seus filhos se sentirão mais compreendidos, respeitados e amados!


* O que é empatia? É a habilidade de se colocar no lugar do outro e compreender mais profundamente o que o outro sente, pensa ou faz.

28.5.07

A dificuldade em dizer não

Ricardo tem 6 anos. Está em casa vendo TV e por volta das 18:30h Valéria, sua mãe, chega em casa com uma caixa de bombons que ganhou no trabalho. Ele corre para beijá-la e, curioso como toda criança, pergunta que presente é aquele. Ela sente-se embaraçada, pois se aproxima a hora do jantar, mas mostra-lhe os bombons. Logo ele pede um e ela argumenta que lhe dará após a refeição. Inevitavelmente ele diz: "só hoje, mãe", "é só um", "prometo que vou comer tudo" etc, etc. Muitas vezes faz "caras e bocas", chora, se joga no chão, xinga a mãe, etc. Valéria ao ver seu filho com tal sofrimento não sabe como proceder, afinal já passa o dia todo fora trabalhando, o que já gera bastante culpa e neste caso em especial, foi ela quem mostrou os bombons fora de hora.

Este caso simples mostra como é importante que o casal pense nas regras de sua casa/família, assim como nos valores morais e éticos que desejam passar a seus filhos. Este pensamento se inicia com a chegada do primeiro filho, quando as situações começam a surgir; para os demais essas regras e valores já estão determinados. Cada família tem regras e valores próprios, naturalmente respeitando os da sociedade em que vivem. O casal deve, então, pensar se em sua casa haverá ou não hora para tomar banho, para as refeições, quando ocorrerão exceções, o tipo de programa deTV permitido, etc. É importante que se respeite a singularidade de cada família, que não será igual nem a do pai nem a da mãe, mas uma nova família a partir desse novo casal. Se na família de Ricardo fosse permitido comer bombons antes do jantar, não haveria conflito. Mas Valéria, juntamente com seu marido, consideram essa ocorrência prejudicial à alimentação e, conseqüentemente, à saúde de seu filho. Então onde está o problema? Vemos dois principais fatores determinantes: o primeiro é a eterna culpa da mãe que trabalha fora e que "justamente nos poucos momentos em que estou em casa, tenho que dar limites ao meu filho", e o segundo, mas não menos importante, é que "ele só quer um bombom", "o bombom também tem seus nutrientes", "qual é o problema de ele não jantar bem só hoje?". Queremos mostrar com isso que Valéria não está de fato convencida de que esta regra esteja correta. Analisando a culpa, é importante relembrar essas mães que em pleno século XXI esta é uma condição presente na maioria das famílias e que a mulher deve resgatar o que a levou a trabalhar, que vai desde uma necessidade real de divisão dos custos da família, inclusive para dar melhores condições a seus filhos, até a realização pessoal de uma pessoa que quer ter outros horizontes profissionais. Desta forma a mãe mostra com atitudes que sabe se valorizar, se cuidar e preservar seu espaço individual, sendo um modelo importante para que a criança saiba também fazê-lo quando chegar seu momento. Com relação ao segundo fator, podemos dizer que quando os pais têm clareza e convicção de sua postura o confronto é mais rápido e tranqüilo.

(Autoria de Verônica V. Cavalcante - psicoterapeuta e presidente do Departamento de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria; Fonte: Terra)

25.5.07

Dia Nacional da Adoção: é só o começo da luta!

Dia Nacional da Adoção, ECA, leis de licença-maternidade para adotantes, tantas pessoas conversando sobre o assunto na internet, às vezes chegamos a acreditar numa evolução significativa da humanidade, mas logo percebemos que ainda estamos apenas levantando o pé em direção ao primeiro degrau da escalada.
Hoje, data tão especial, ouvi de uma colega de trabalho os mesmos preconceitos e falta de informação a que as famílias adotivas estão habituadas: "Eu posso ter dó, posso até ajudar um pouco, mas levar para a minha casa? Nem pensar! Você é louca!". Tudo dito com risos de deboche.
Como nos diz Lidia Weber, "o preconceito em relação à adoção ainda é forte. Existe dificuldade de encarar a adoção como uma outra maneira 'verdadeira' de constituir ou aumentar uma família e isso traz problemas para as famílias que decidem por este procedimento. (...) Além da questão de o filho adotivo não ter o mesmo sangue, existe a presença de uma questão social importante, mas pouco evidenciada: geralmente a criança adotada vem de níveis mais baixos na hierarquia social, e sabe-se que, especialmente no Brasil onde existem elevadores e partes especiais para empregados domésticos, o nível sócio-econômico é bastante discriminatório."
As famílias adotivas são parte dessa sociedade, por isso não estão livres dos mesmos preconceitos, ainda que tenham optado pela adoção. Quando falamos nas adoções necessárias (tardia, inter-racial, moral) parece que estamos ofendendo muitos pretendentes à adoção. A maioria se limita a dizer que "adoção não é caridade". Para mim, essa frase se tornou banal e vazia!
Os futuros pais falam em seus direitos, seus sonhos, "querem um bebê parecido com sua família, 'porque existe muito preconceito dos outros', e que 'possa ser cuidado desde pequenininho para poder sentir tudo o que tenho direito, até noites sem dormir.'" (LW) E o direito da criança? Basta dizer que adoção não é caridade?
"Aconselho (a adoção) porque o casamento não pode ser um egoísmo a dois e o casal deve escolher o tipo de criança." E essa frase não é egoísta?
Do outro lado, ouvimos: "Eu queria ter pais adotivos que gostassem de mim e dos meus irmãos e que nós fôssemos felizes até crescer. - menino de 12 anos".
O dia de hoje deve servir para encararmos a realidade, refletirmos e nos prepararmos para a árdua luta que ainda teremos de travar contra nossos próprios preconceitos e imperfeições.

23.5.07

dando uma mão ao destino

Normalmente, quando damos entrada no processo no Fórum, somos encaminhados para grupos de apoio. Nestes acontecem conversas, trocas de opinião.... vc fica sabendo que aquele bebê lindo e loiro não virá tão fácil... cede aos conselhos dos coordenadores e técnicos e muda seu perfil para uma criança maior. E acredite quem quiser, mesmo com os abrigos cheios, continua de quarto vazio na sua casa! Como pode?
Porque estas crianças estão lá se existem tantos pretendentes a elas?
Este meus amigos, o X da questão. Muitas vezes, uma vez recolhidas ao abrigo, seja por abandono, seja por maus tratos, estas crianças se tornam invisíveis ao Judiciário. Afinal, tem teto, comida, educação... deixam de ser prioridade e os dias vão passando.
Bom, todos sabem que apenas podem ser adotadas crianças que já foram destituídas. E estas crianças não são destituídas, então não podem ser adotadas. O pequeno problema é que muitas vezes não foram destituídas pq foram esquecidas, relegadas a 2o plano. Basta um pequeno empurrão e tudo está resolvido.
E o que podemos fazer nós, que queremos estas crianças? Ir a luta! Em primeiro lugar, conversar com a AS. Ela sabe se existem crianças em situação de abandono (sem visitas) . Se a AS da sua comarca não te der bola, paciência, mas não desista. Tente a da comarca vizinha.
Tenha em mente que não é correto ir a abrigos para escolher um filho. Porém, muitas vezes uma vizinha voluntária sabe de alguma criança. Ou a diretora de um abrigo. Ou uma professora. O importante é ficar alerta.
Conversou com a AS e não deu em nada? Ou teve sucesso? Veja quando o Promotor da sua cidade atende ao Público. È dele a iniciativa de provocar a destituição. Às vezes ele nada fez pq sequer sabe que aquela criança existe.
Muitas vezes, porém, eu ouvi o seguinte comentário como justificativa para fazer nada: é verdade que mesmo eu fazendo tudo isso pode ser que esta criança não venha para mim? É. Muitos juizes entendem que quando da destituição, a lista tenha de ser consultada. A boa notícia porém é que a grande, imensa, esmagadora maioria procura a menina branca RN. Não estão interessados na princesa de quatro anos que tem um irmão. Ou na menina de um ano que tem um irmão de dois.
E de qq maneira, acredite que cutucando o juiz, vc vai ganhar muitos pontos no céu! Afinal, pode ser que essa criança linda não vá para sua casa. Mas com certeza ela vai ganhar o que ela mais quer: uma família!

18.5.07

Comentando sobre a revelação

Estou terminando de ler o livro Pais e filhos por adoção no Brasil da Lidia Weber e há uns trechos bem interessantes sobre a revelação. Achei melhor abrir um novo post em vez de comentar no texto da Cláu, assim todos podem ler mais facilmente.

"Os depoimentos de filhos adotivos mostram que a 'revelação' tem compreensão diferente em diferentes estágios do seu desenvolvimentoo, e portanto, A HISTÓRIA DA ADOÇÃO DEVE SER CONTADA EM DIVERSOS MOMENTOS, EM DIFERENTES IDADES DA CRIANÇA, mas quanto mais cedo isso ocorrer, mais facilmente será incorporado como uma situação 'natural' e não um tipo de transgressão à ordem (biológica e cultural) vigente. Um depoimento de uma mãe adotiva, feito em um congresso da área, revelou essa falta de conhecimento da adoção e processo de desenvolvimento de uma criança: ' Eu não sei o que fazer com a minha filha. Hoje ela tem 15 anos e está muito revoltada porque é adotada. Eu contei para ela, quando ela tinha 5 anos, mas ela esqueceu!'"

"Para Neuburger, é injusto e inexato dizer para uma criança que ela É uma criança 'adotada', pois isso qualifica uma natureza particular de ligações que a obrigará a uma eterna obrigação de justificar o seu comportamento por uma conduta diferente, pois não é uma criança como as outras. Toda criança, qualquer que seja o modo de procriação, entra em uma família por um ato civil. Em vez de rotular a criança com uma criança adotada, é lícito e legítimo ensinar-lhe que ELA ENTROU NESSA FAMÍLIA POR ADOÇÃO, família esta que, por vezes, foi constituída com a sua chegada. Neste sentido, a contingência que permitiu sua entrada na família foi a adoção, mas agora essa criança é tão filha (o) dos seus pais adotivos quanto as crianças que entraram em uma família através da procriação."

"Não apenas o revelar, mas O QUÊ FALAR PARA O FILHO SOBRE A ADOÇÃO TAMBÉM É EXTREMAMENTE IMPORTANTE. Melina afirma que não se deve falar que a 'criança foi escolhida'. Isso pode levar a criança a pensar que se ela foi escolhida, um enorme contingente de outras crianças foi deixado de lado, e essa é uma imagem impossível de conviver, pois leva ao pensamento de que se ele foi escolhido é porque ele é perfeito e ele não seria escolhido se tivesse mostrado alguma imperfeição. Na verdade, parece que é preciso aproximar-se o máximo possível da situação real e da motivação para a adoção e afirmar que não somente a criança estava em uma situação difícil: os pais também estavam porque queriam muito um filho que não conseguiam ter. Esse ponto de vista, especial para pais adotivos inférteis, faz com que eles não fiquem sempre com a imagem de salvadores da criança e os filhos, com a gratidão eterna..."

16.5.07

Quando falar sobre adoção

Como, quando e porque você deve falar com seu filho sobre suas origens
"A criança pode suportar todas as verdades"F. Dolto

Uma atitude muito importante para se preservar a saúde mental de uma criança é a de dizer claramente se ela foi adotada ou não. Dados clínicos nos mostram que a "mentira" dentro do contexto familiar, principalmente quando esta encontra-se atuando sobre a negação das origens de uma criança, atua como um fator que leva a situações patológicas.
A criança adotada se desenvolveu no útero de sua mãe biológica, na maioria das vezes em condições impróprias e sentindo-se rejeitada (sabe-se que o feto capta os estados emocionais da mãe e reage a eles). Os pais adotivos não podem negar esta "pré-história" do bebê, até porque ele mesmo viveu isso. É claro que tais informações nunca chegarão a mente em forma de lembrança, mas isso não quer dizer que elas não estejam armazenadas em algum lugar deste indivíduo.
O fato da "pré-história" do bebê ter sido "difícil" não significa que por isso ele será uma criança mais infeliz ou pior do que outra. A criança só terá prejuízos se a sua história gestacional não puder ser integrada a sua história pessoal.

Por que não se deve mentir?

Porque uma mentira nunca terá o status de verdade. Quando se mente sempre paira o "fantasma da verdade", sempre existem tropeços, enganos e um certo mal-estar familiar (por mais que os próprios pais muitas vezes não percebam isso). É é dentro desse contexto que se formam freqüentemente distúrbios psicológicos na infância.
Ao adotar uma criança você não precisa tornar público esse ato, mas é muito importante que ele seja dito em âmbito privado, isto é, na família.

Como e quando contar ao seu filho sobre a adoção?

Em primeiro lugar, gostaria de ressaltar que cada criança é diferente da outra, assim como cada família. Desta forma, não há como obter uma resposta padrão para essa pergunta.
É importante que os próprios pais possam ir sentindo o momento ideal. Uma grande dica para tal é tentar introduzir o assunto a partir de perguntas formuladas pela própria criança. Então, no momento em que a criança começar a formular perguntas do tipo: "Mamãe / papai ! como eu nasci?" ela estará dando um sinal de que vai ter respaldo de seu mundo interno para "compreender" o que lhe for explicado.
Sobre este "compreender" acho muito importante enfatizar que a linguagem e a forma de contar sobre a adoção para uma criança deve ser apropriada para a sua idade para que realmente haja compreensão e para que esta não seja traumática (quando a criança recebe uma informação em quantidade e qualidade incompatível para a sua idade).
A criança apreende o mundo de uma forma diferente do adulto, até porque seu potencial cognitivo ainda não foi totalmente desenvolvido. Portanto, procure falar com o seu filho da maneira mais próxima da sua compreensão, mostrando-lhe claramente o quanto você desejou e esperou a sua vinda ao mundo. Afinal, a adoção é um grande ato de amor. Não será bonito e saudável contar para o seu filho sobre essa história?

Fernanda Travassos
Psicoterapeuta

13.5.07

FELIZ DIA DAS MÃES!




Neste dia mágico, desejo que muitas mulheres possam sentir a felicidade de ser mãe de uma criança real como a garotinha da foto tirada há três anos, um mês antes de eu comemorar meu primeiro Dia das Mães. Minha moreninha linda ao lado de minha mãe é a homenagem que ofereço a todas as mamães e futuras mamães!


MÃE ADOTIVA


"Eu sei, mamãe, que por um capricho do destino, ou simples desejo Divino não foi em seu ventre que me formei . Quis a vida que eu fosse escolhido não pelo acaso, mas pelos próprios caminhos apontados por Deus.
Eu sei que a primeira vez que você me sentiu mexer foi em seus braços e não em seu ventre. Mas...mãe! Há algo mais forte que os laços de sangue: são os laços do coração, aqueles que por uma razão inexplicável nos ligam para sempre a uma outra pessoa. Assim eu nasci, não da sua barriga, mas do seu ser.
E você me acolheu com braços quentes, como se eu fosse carne da sua carne. Me pôs contra seu peito e eu pude ouvir a voz do seu coração me acalmava me dizendo para não ter medo, que eu encontrei um lar. Você me devolveu a dignidade de ser chamado de filho e a honra de ter uma verdadeira mãe, exatamente como deve ser.
Sei que em momentos de zanga eu digo que vou procurar minha mãe. Mas quero que você saiba que meu coração não pensa o que digo e gostaria que me perdoasse. Mãe não só é aquela que põe no mundo, mas aquela que, vivendo ao nosso lado, nos prepara para enfrentar o mundo. Aquela que cura a dor com beijos e se alegra quando nosso coração se alegra. Talvez você não tenha me dado a vida, mas deu certamente uma razão para viver...
Deus sabia, mamãe, que você era o anjo na medida exata para fazer a minha felicidade. Te amo!"

Letícia Thompson

8.5.07

Crianças maiores sobram nos abrigos!

A TARDE ON LINE
29/04/2007
Crianças maiores sobram nos orfanatos por falta de pais adotivos
Kleyzer Seixas

Alexandre dos Santos, Julian de Souza e Luana Araújo são crianças que estão
com mais de 10 anos de idade, não têm pais, moram em um orfanato e não
perdem a esperança de encontrar uma família. Os três mandaram cartas ao
Juizado da Infância e Juventude, pedindo para ser adotados até os 18 anos,
idade limite para permanecerem em instituições destinadas às crianças órfãs
ou vítimas de maus-tratos. A realidade, no entanto, parece estar distante
dos anseios deles.
A maioria das pessoas que optam pela adoção prefere crianças menores de dois
anos. Somente na instituição Lar da Criança, onde os três jovens residem,
quatro foram adotados em abril. Nenhum deles havia completado ainda dois
anos, assegura a diretora do local, Iraci Lopes de Souza Coimbra.
“É uma pena vê-los vivendo dentro de uma instituição, sem manter contato com
parentes. Estão tirando o direito deles de conviver em uma família, de
chamar pelas suas mães ou pelos seus pais”, destaca Iraci, funcionária do
Lar da Criança há mais de noves anos. “É comum que muitos fiquem na casa até
completarem dezoito anos”, lamenta.
Enquanto aguardam pela chegada dos pais, os três estudam e fazem planos para
o futuro. Alexandre pensa em ser advogado, Luana , que adora maquiagem,
pretende abrir um salão e ser cabeleireira e Julian ainda não decidiu a
profissão que seguirá. “Ainda tenho expectativa de encontrar uma família,
mas a maioria vem em busca de recém-nascidos”, diz Alexandre, sobre a
preferência dos casais.
A situação não é diferente em outras instituições da capital baiana. Cerca
de 95% dos candidatos à adoção estão busca de bebês, afirma a psicóloga
Cíntia Liliana Reis de Silva, que trabalha no Juizado da Infância e
Juventude há cinco anos e dá apoio aos novos pais durante o período de três
a oito meses após a adoção. O tempo é necessário, segundo a especialista,
para auxiliá-los caso haja alguma dificuldade no início da convivência.
A procura pelas crianças mais novas acaba gerando um problema: os bebês são
adotados e aqueles que já passaram da idade mais solicitada pelos candidatos
à pais acabam permanecendo nos orfanatos por mais tempo do que o
recomendado. Das 80 crianças à espera de adoção atualmente nas unidades
credenciadas ao Juizado, mais de 60 já têm mais de dois anos.
Expectativa dos pais - A facilidade de adaptação ao novo lar é apontada
pelos novos pais como um dos principais motivos para preferir os bebês.
Muitos pretendentes à paternidade acreditam que é mais fácil educar uma
criança com idade menos avançada, porque podem acompanhá-la desde os
primeiros meses de vida.
Muitos deles, segundo a psicóloga, pensam que irão, de certa maneira,
interferir de forma mais enfática no processo de formação do filho. “Dessa
forma, acham que conseguirão acompanhar a educação familiar melhor, são
fantasias da sociedade. Mas é um preconceito porque isso não é verdade”.
A adaptação foi o motivo que levou o técnico em informática, Geraldo Antonio
Marques Lima, 39, e sua esposa, a optarem por adotar o pequeno Roger, que
tinha quatro meses quando foi morar com a nova família. Após sucessivas
tentativas de ter um filho biológico, o casal resolveu procurar o Juizado no
ano passado.
“Uma criança de dois anos começa a conhecer a vida. Pela criação dos meus
sobrinhos, vejo isso. É mais fácil de educar um bebê. Como era nosso
primeiro filho, queríamos um novinho mesmo. É mais fácil de adaptar à
realidade dele. Não é que uma menina de cinco ou dez anos não vá se
acostumar, mas é mais difícil”, destaca.
Assim como muitas pessoas interessadas em encontrar filhos em orfanatos,
Antonio Lima acredita que quanto maior é a criança, mais difícil mudar os
seus hábitos. “Os maiores já vem com seus costumes e é muito complicado
interferir. Por esse motivo, optamos por um bebê na nossa primeira
experiência”, salienta.

6.5.07

Meninos e Meninas

Existe uma procura ligeiramente maior para a adoção de meninas que de meninos. Essa diferença cresce com a idade. Até onde eu posso ver, está diretamente ligada as idéias que a gente tem sobre as diferenças sexuais.

Primeiro: é claro que existem diferenças entre os sexos. Eu já passei dos três anos de idade em que tudo aquilo era uma novidade e a descoberta de que "meninos têm pênis e meninas têm vagina" era o grande assunto. Isso todo mundo sabe. A questão é se existem diferenças de comportamento estritamente ligadas ao sexo.

As pesquisas científicas são bastante inconclusivas. Elas mostram que existem diferenças entre os homens adultos e as mulheres adultas, mas não diz se elas são fruto da criação ou de mudanças hormonais da puberdade. De uma forma ou de outra, é ponto pacífico que meninos e meninas não possuem diferenças, exceto se forem criados de maneira diferente.

O imaginário popular parece apontar pra algo completamente diferente: que meninos seriam mais levados que meninas. Mas se nós formos ver isso é muito mais uma expectativa que uma realidade. Meninos que não são agressivos, desafiadores e curiosos são mal-vistos. Meninas que não são obedientes, tímidas e dependentes são mal-vistas da mesma forma. Assim, se cobra das crianças que se encaixem em um papel pré-definido e se comete a maior das injustiças: não se adota meninos mais velhos com medo de trazer um "marginalzinho" pra casa.

Sim, preconceito. Violento e grosseiro, capaz de arrasar com a vida de crianças, como qualquer preconceito. Principalmente quando se conhece iniciativas de eliminação desses papéis sociais pré-definidos, como os que acontecem na Noruega. Lá os professores são treinados para evitar qualquer comportamento que incentive o sexismo, como proibir o menino de brincar de boneca ou a menina a brincar de carrinho. O que aconteceu? Aconteceu que as crianças brincam todas juntas, crescem juntas e param de viver numa eterna competição entre os sexos. Natural para um pais que tem 50% dos cargos públicos ocupados por homens e os outros 50% por mulheres.

E antes que o grande terror dos sexistas venha à tona: Não, não existem mais homossexuais na Noruega. Se você realmente acha que existe uma relação entre brincar com carros em miniatura e transar com mulheres, você precisa de tratamento.

3.5.07

REGRESSÃO


Estamos vivendo a experiência da regressão, uma fase comum na adoção tardia. A Thamires (8 anos e 7 meses) quis porque quis uma chupeta; insistiu nessa idéia várias vezes. No domingo, estávamos numa loja de brinquedos, ela viu a chupeta e pediu de novo. Minha mãe estava junto e resolveu comprar para ela.
O Davi (7 anos e 5 meses) e a Raquel (10 anos e 4 meses) quiseram uma mamadeira. Agora eles querem tomar mamadeira toda noite, no colinho da mamãe e do papai, igual bebê.
A Thamires experimentou a mamadeira uma vez, engasgou e não quis mais, mas dorme com a chupeta. Hoje ela queria levar a chupeta para a escola de qualquer jeito, sem nem se importar se os outros iam debochar dela, mas eu não deixei.
No início da sua adaptação, a Quelzinha, com 7 anos e 4 meses, teve muita curiosidade sobre meu corpo, principalmente meus seios. Acabou se contentando em brincar com as mãos, coisa que faz até hoje. A Thamires foi logo imitando a Quel. O Davi demorou um pouco, mas também já matou a curiosidade.
A Thata e o Davi nunca fizeram xixi na cama, mas a Quel...muitas vezes no começo.




“Geralmente, a criança adotada tardiamente vive um processo psíquico de regressão. Ela se reporta ao estado imaginário de recém-nascido e vive uma espécie de segundo nascimento, a partir do qual ela pode percorrer de novo seu desenvolvimento e até resolver melhor as fases da constituição do ego.A fase mais regressiva do processo de adoção tardia é a fantasia de reinclusão no corpo maternal. O “fantasma intra-uterino” leva a criança a buscar, através do contato corporal pele a pele,boca a boca, a realização do desejo de se reintroduzir no corpo materno, de voltar a viver na barriga da mãe( no caso, de habitar pela primeira vez). O desejo de renascer da barriga desta mãe é um ponto importante na identificação do processo de filiação que a criança, começa a estabelecer com as novas figuras parentais.” - Rosa Pires Aquino – Psicóloga/Coordenadora Projeto Padrinho


“É comum crianças em idades avançadas perderem temporariamente o controle dos esfíncteres, voltarem às mamadeiras, às chupetas.
Essa regressão é vista como muito positiva pela psicologia pois simbolicamente a criança renasce para a vida nova.” - Adriane Albuquerque Cirelli - Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Hospitalar