3.9.07

Permitir que a Criança Viva a Sua Infância

por Elvira Souza Lima


Podemos iniciar nossa conversa dizendo que toda criança tem direito a viver sua infância. Nesse período, a criança realiza inúmeras aprendizagens que servirão para toda a vida. Muitas delas se efetivam por meio de práticas culturais, que, por sua vez, desempenham papel central, e cabe não apenas à família, mas a vários setores da sociedade, garantir sua presença na vida das crianças.
Em seus primeiros anos de vida, a criança obtém duas conquistas importantes: andar e falar. O período que se segue a isso será marcado pelo desenvolvimento da função simbólica (falar, desenhar, imaginar...). As atividades que predominam nesse período são as que envolvem movimento e criação de significados, fazendo com que a criança se desenvolva como um ser de cultura.
E que atividades são essas? Desenhar, brincar de faz-de-conta, realizar brincadeiras infantis que envolvam personagens e ações imitativas, cantar, dançar, ouvir histórias, poesias e narrativas da cultura local. É muito importante para a criança a vivência das práticas culturais de sua comunidade e região, pois a elas estão ligadas a percepção de si mesma como parte de um grupo e a formação de sua identidade. A experiência com imagens e com sons é uma parte importante na educação da criança pequena, por isso toda criança precisa desenhar, cantar, ouvir música e brincar.
Em seu processo de desenvolvimento, a criança pequena desenha muito. Toda criança vai desenhar indo ou não à escola, ou seja, desenhar faz parte de ser criança. É muito importante que os adultos respeitem essa atividade, porque enquanto a criança está desenhando ela está aprendendo muitas coisas. Para nós, adultos, pode parecer que desenho não é uma coisa séria como aprender a escrever, mas é. O domínio da forma desenhada também é uma das bases do desenvolvimento da escrita.
Todo desenho tem uma ação: para a criança tem sempre uma história no desenho que ela faz. O desenho é uma narrativa: mesmo que para o adulto ele pareça uma representação estática, para a criança ele é ativo, dinâmico, tridimensional. Mesmo que a criança não fale nada enquanto estiver desenhando, ela está "pensando" no que desenha. Então, ao desenhar, a criança trabalha com sua imaginação, cria novas imagens, desenvolve sua memória, organiza sua experiência para compreendê-la. O ato de desenhar não é, simplesmente, uma atividade lúdica, ele é, também, ação de conhecimento. O desenho é, pois, parte constitutiva do processo de desenvolvimento da criança.
A música promove a comunicação entre as pessoas, provoca envolvimento emocional entre elas. Cantar, tocar um instrumento, ouvir música são atividades que fazem bem ao ser humano em qualquer idade. Na infância a música é mais importante ainda, pois contribui para o desenvolvimento da criança. As cantigas infantis possibilitam o desenvolvimento da memória auditiva, do ritmo e da melodia, com realizações que estarão envolvidas na apropriação da leitura e da escrita.
Nascida em uma cultura que valoriza tanto a música quanto a dança, a criança brasileira é exposta desde bebê a uma vivência musical variada. Do mesmo modo, a criança brasileira também tem experiências com a dança nas festas populares, na mídia, nos rituais das tribos, nas celebrações religiosas, nas festas e em outros eventos.
É muito importante que se valorize a vivência musical, criando situações em que a criança possa, diariamente, ter alguma atividade que envolva a música. Muitas das brincadeiras infantis já trazem essa experiência, o folclore brasileiro tem uma variedade muito grande de atividades que envolvem música.
Sabemos hoje que a música é importante no desenvolvimento do cérebro, traz muitos benefícios para as aprendizagens que a criança terá mais tarde, na escola.
Por exemplo, as músicas cantadas têm rimas. Ter sensibilidade à rima, sabe-se hoje, é um dos componentes essenciais para a aquisição da leitura. O que é ter sensibilidade à rima?
É saber reconhecer rimas e saber fazê-las, também.
Para a criança que se está constituindo como um ser da cultura, é fundamental entrar em contato constante com a música. Para a criança brasileira, a música é mais do que isso, é dialogar com o outro, é ser inserida na cultura de nosso país.
As brincadeiras infantis envolvem movimento. Muitas delas fazem com que a criança movimente seu corpo no espaço. Isso ajuda, por exemplo, a formar conceitos de localização no espaço, como acima/abaixo, dentro/fora, perto/longe.
Muitas brincadeiras trazem pequenas narrativas, que auxiliam no desenvolvimento da oralidade e do seqüenciamento de fatos, como a rosa juvenil [cantiga de roda sobre uma menina, Rosa, que é vítima de uma feiticeira e sobre o rei que irá desfazer o feitiço. Na brincadeira, as crianças formam a roda; a que vai para o centro será a Rosa, e outras duas, de fora da roda, serão a Feiticeira e o Rei. Seguindo as estrofes da música, cada criança deve agir de acordo com o seu personagem. Aquelas que estão na roda, devem girar e cantar ao redor da Rosa]. Todas envolvem a memória de movimentos seqüenciados em uma ordem constante. Por exemplo, lenço-atrás [brincadeira em que os participantes formam uma roda, em torno da qual um deles corre levando um lenço na mão e dizendo versos; o lenço deve ser deixado atrás de uma pessoa, que sairá da roda perseguindo o que a escolheu e tentando impedi-lo de ocupar o lugar deixado vago], coelhinho-sai-da-toca [cada participante senta em uma cadeira e o que comanda o jogo fica em pé. Quando ele gritar "Coelho sai da toca", todos devem mudar de lugar; inclusive o comandante deve se sentar. O que ficar de pé sai do jogo e uma cadeira é retirada].
Brincar é necessário para que a criança cresça saudável, não pode ser substituído por outro tipo de atividade. Um dos direitos mais fundamentais da infância é ter tempo para brincar e cabe aos adultos criarem essa possibilidade para toda e qualquer criança.
Ouvir histórias, ouvir e recitar poesias, parlendas [rima infantil usada em brincadeiras], conversar com outras crianças, ser ouvida pelo adulto são situações que todas as crianças devem ter continuamente. O folclore, as festas tradicionais, as celebrações são também fonte de ampliação da experiência, além de funcionar como oportunidades para a formação da identidade cultural.
O que foi colocado aqui é válido, igualmente, para as crianças que nascem com alguma diversidade biológica, ou seja, não ouvem, são cegas, possuem alguma síndrome (por exemplo, a síndrome de Down), têm algum impedimento por causa da condição de seu cérebro (paralisia cerebral, por exemplo). Para essas crianças, as atividades da infância são tão necessárias como para qualquer outra criança. Nesses casos, a sensibilidade dos adultos é muito importante, pois são eles que podem criar condições para que essas crianças brinquem, ouçam música, participem de atividades culturais e festas públicas, entre outras coisas.
Finalmente, toda criança tem o direito de conviver com as diferenças. A formação ética com respeito à diversidade cultural e à diversidade biológica é uma responsabilidade de todos na sociedade. Se a criança não conviver com as diferenças, ela não terá a possibilidade de ampliar sua experiência de vida e compreender que a diversidade é normal na nossa espécie.
"Toda criança tem o direito de conviver com as diferenças. A formação ética com respeito à diversidade cultural e à diversidade biológica é uma responsabilidade de todos na sociedade"

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Elvira Souza Lima é antropóloga, psicóloga e pesquisadora
associada à Universidade de Salamanca, na Espanha

Um comentário:

Kátia disse...

Boa noite..
Eu sou estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e estou fazendo uma reportagem sobre adoção de crianças com necessidades especiais..
Há algum tempo eu tenho acompanhado o blog de vcs e pecebi q vcs são um grupo q trabalha com seriedade..

gostaria de saber se vcs aceitariam esclarecer algumas dúvidas sobre o temas e talvez me indicar algum caso desse tipo de adoção...

meu email eh katinha_08@hotmail.com

qlqr ajuda será bem-vinda!! ^^

Obrigada pela atenção!