11.5.06

Perguntas e Respostas

Por que, num pais mestiço como o nosso, ainda encontramos tantas barreiras para adoção de crianças etnicamente diferentes da gente?

Porque não somos mestiços. Somos um país branco. Mandamos vir um monte de gente da Europa pra que o Brasil deixasse de ser mestiço. Claro que qualquer um que conheça uma pessoa branca de verdade sabe que de brancos não temos nada, somos, quando muito, pardos. Mas as pessoas gostam de se pensar brancas. Gostam de se separar pela cor da pele, não é nem étnico. Tanto faz se seus pais são negros brancos ou japonês, é mais importante você ser pálido. Patético? Ô! Mas o que se pode fazer? A grande parte das pessoas é burra que dói!

O que explica que meninos negros ou pardos com mais de 5 anos tenham pouquíssima chance de adoção?

Três coisas. Primeira: São meninos. As pessoas preferem meninas, porque querem brincar de boneca. Acham meninos violentos. Sendo que antes da puberdade não existe diferença nenhuma. Tirando, é claro, que as meninas mordem com mais força e se você bater na cara a Diretora pode te expulsar. Algumas crianças precisam até de brinco pra identificação! Claro que se você cria meninos e meninas pra serem diferentes, eles ficam diferentes. Mas isso tem muito mais a ver com como você educa seus filhos (e a sociedade em que ele é educado) do que razões orgânicas. Vide Suécia e seu programa anti-sexismo. Eles não têm mais casos de violência entre os meninos porque todos são criados da mesma forma.

Segunda: São negros. Ou pardos, o que quando é marcado no papel quer dizer "negro, mas não tão escuro". É um dos tipos de eufemismo pra coisas que não são negativas. Ser negro não tem nada de mais. Quer dizer, é claro que tem algumas coisas a mais, como ter maior resistência a câncer de pele e menor resistência a parasitas sanguíneos. Mas fora isso... O mais hipócrita de tudo é que as pessoas justificam seu próprio preconceito mal assumido (porque ninguém é racista, não... Não existe esse tipo de coisa no Brasil) dizendo que não quer que o filho sofra preconceito. Oras, se não quer que seu filho sofra preconceito, comece a tentar mudar a cabeça das pessoas preconceituosas. A começar pela sua. Você não tem que deixar de criar um filho por
causa do preconceito, você tem que lhe dar elementos para lutar contra o preconceito e tornar o mundo um lugar melhor. Pro seu filho e pros filhos dos outros.

Por último, a criança é velha pros padrões de adoção. Eu adoraria pensar que as pessoas só adotam bebês porque gostam muito de fralda suja, choro de madrugada e vômito morninho nas costas. Ou que gostam de gastar fortunas pra sustentar um bichinho extremamente frágil, que se você apertar a cabeça, afunda. Infelizmente tudo me leva a crer que o motivo é muito mais torpe. E ele se divide em dois: A genética (oh meu deus!) e as experiências da criança.

O da genética da criança vocês já devem ter visto. Impede as pessoas de adotar qualquer criança e é muito comum nos EUA. É o medo que a criança traga em seus genes alguma psicopatia, uma tendência a violência ou coisa do gênero. E, é claro, isso é uma palhaçada. Não existe esse gene. E mesmo que existisse um conjunto de genes reguladores da violência, eles seriam tão influenciados pelo meio quanto quaisquer outros. Ou vocês acham que uma pessoa desnutrida vai chegar a ter dois metros de altura se tiver genes pra isso? Você precisa de uma situação ideal na qual os genes se desenvolvam ou não. Você poderia até ter um "gene para compor sonatas de piano perfeitas", mas se não tiver um piano ele nunca vai funcionar.

O das experiências da criança é burro igual, mas é uma burrice muito mais sutil, que se você não prestar atenção, passa por inteligência. Uma vez que nós somos influenciados pelo meio, a criança que já passou uma cara no abrigo foi muito influenciada por um meio desconhecido. Isso pode levar a criança a ter comportamentos desagradáveis pros pais. Então eles não levam a criança pra casa. Sem entrar no lance de querer uma folha em branco pra poder decalcar a sua personalidade envolvido nesse caso (o que eu considero quase patológico), eu tenho que dar um dado chocante: O filho não sofre influência exclusiva dos pais. Mesmo nos estágios iniciais do desenvolvimento da criança, tipo, três, quatro anos, a criança sofre cerca de 50% de influência do ambiente externo. Não tenho idéia de como foi feita essa determinação, mas ela está no livro do Pinker, "Como a Mente Funciona". Para além dos números, o importante é a idéia: Seu filho não é criado só por você. A escola faz diferença. Os amigos fazem diferença. A TV faz diferença. A internet faz diferença. Então que história é essa de ter medo do que o garoto está trazendo de experiências do abrigo? Ele também vai ganhar um monte de influências que estão completamente além do seu controle. Seu trabalho é justamente deixar ele livre pra experimentar o mundo (a menos que você esteja criando o garoto da bolha de plástico) e apagar os incêndios que surgirem no caminho. Ou vocês acham, só pra citar um exemplo comum, que quando o filho usa drogas é porque os pais ensinaram?

Se não temos preconceito, por que temos tanto receio de enfrentar a sociedade e a família numa adoção diferente da gente?

Porque somos carentes e queremos ser amados por todos. Se nós não nos expomos ao preconceito, podemos pensar com alegria que as pessoas gostam da gente acima de qualquer coisa e que não temos amigos preconceituosos. Quando nos expomos, colocamos tudo isso à prova. Será que eles gostam mesmo da gente? Será que eles são mesmos livres de preconceito? Será que podemos sentir orgulho da nossa família? Será que podemos contar com eles sempre? É mais ou menos a razão porque muitos gays não se assumem. Têm medo de perder a ilusão de que tudo está bem. Mas eu acho que é melhor perder a ilusão de que as coisas estão bem e educar as pessoas pra que elas realmente fiquem bem do que tapar o sol com a peneira. Eu prefiro descobrir que meus alunos não sabem nada de Química e que eu vou ter que começar tudo de novo do que aprová-los sem que eles realmente tenham aprendido.

2 comentários:

Glaucia disse...

Ebaaaa! Gente nova no pedação.
Gente nova é semrpe bom, é cabeça nova, idéias novas, visão de mundo difernente.
O bom de gnete jovem de qualidade, é que é um refresco pra gnete que sem se ligar muito começa a pensar igual, agir igual...Bem vindo Pantro, vai ser ótimo contar com gente jovem e de idéias jovens , mas cheia de valores humanos na cabeça.
Você é um refresco muito bem vindo e sum ser menos babão que esses pais e mães babões que ja postaram.
Beijos e nos orgulhamos te te-lo entre a gente.

Anônimo disse...

Olaaa
Adorei seus textos, tb tenho um blog - é em homenagem a minha filha. Vou passar sempre por aqui.
abraços
luchmar@uaivip.com.br