3.3.08

Rodrigo e Malu

"Dia 10 de dezembro recebi um e-mail, tanto aqui quanto de outras listas, informando sobre crianças disponíveis para adoção no Estado do rio de Janeiro. Acabei não ligando pq os perfis descritos estavam fora de minhas possibilidades (3, 4 crianças). Porém, no dia 11 resolvi ligar pra pegar o endereço para mandar cópia da minha habilitação, quando fui informada de que havia um menino de 1 ano e 9 meses que não andava e não falava e que teria possíveis problemas mentais e que não havia pretendentes para sua adoção e que o mesmo iria para adoção internacional. Na hora eu disse que eu o adotaria. Além dele, também havia uma menina de 30 dias cuja mãe é HIV e que havia um casal francês interessado na adoção, já que não havia brasileiros (cariocas) interessados na adoção, mas que ainda não haviam dado certeza. Me coloquei na fila: se o casal frances desistisse eu ficaria com a menina também.

Dois dias depois recebi uma ligação da comarca informando que o casal frances havia desistido da adoção da menina e que o menino continuava sem pretendentes. Na hora disse que eram meus filhos e que iria buscá-los. Mandaram que eu, primeiro, fosse ao abrigo conhece-los, para só, então, ir ao forum com a certeza de que eu os queria. Disse que não precisava vê-los, que já sabia que eram meus filhos. Porém insistiram para que eu fosse primeiro ao abrigo.
Durante os dias que se seguiram, liguei algumas vezes para o abrigo para saber tamanho de roupa, tamanho de fralda, marca de leite que os pequenos tomavam e fui me preparando.

No dia 18 fui para o Rio. Sai daqui de São Paulo às 2 da manhã. cheguei ao Rio cerca de 8hs, porém me perdi (grande novidade rs). Acabei por chegar no abrigo apenas as 10hs da manhã.
Chegando no abrigo, logo me trouxeram a pequena Maria Luiza (nascida Thamyres). Não preciso dizer que foi amor imediato. Ela ficou tranquila no meu colo e eu toda desengonçada com um tequinho de gente nos braços que mal sabia como segurar. Diga-se que Malu tinha hernia inguinal e precisava de alguns cuidados como: sempre pegá-la ao colo para que não chorasse para a hernia não encarcerar; o leite tinha de ser um pouco mais fraco para evitar cólicas e etc.
Rodrigo Emmanuel (nome de registro e que eu achei lindo) não estava no abrigo porque fora fazer uma tomografia.
Fiquei no abrigo até que ele chegou. De imediato, quando cheguei perto, ele abriu o berreiro, virou o rosto e não quis vir no meu colo. Na hora fiquei preocupada pensando que ele não havia gostado da minha cara, mas as moças do abrigo me acalmaram dizendo que ele era realmente muito ressabiado com todos, mas que logo se acostumaria comigo.

bom, quando foi umas 14hs ligaram do forum nos chamando para a audiência. Fui acompanhada da diretora do abrigo.
No forum foi tudo muito tranquilo. A defensora pública entrou com as petições para o pedido de guarda. Tudo foi feito de forma rápida. A audiência também foi tranquila.
Sai do forum depois das 19hs e corri para o abrigo com os termos de guarda na mão.
Cheguei no abrigo, as crianças ja estavam trocadas e alimentadas para aguentarem a viagem. Fui me aproximando com cautela de Rodrigo, pq ainda tinha receio de que ele chorasse, mas qual não foi minha surpresa quando ele levantou os bracinhos e veio direto para o meu colo? Afff. só emoção!

Peguei a estrada quase 22hs e cheguei em São Paulo às 3hs da manhã.

Uffa. A viagem foi tranquila. O único problema foi trocar Rodrigo de lugar com Malu. Eu havia levado um moisés para trazer maluzinha e traria Rodrigo no colo. Porém logo no começo da viagem, Malu começou a chorar muito. então coloquei Rodrigo no Moisés (ficou com as perninhas dobradas, tadinho,) e eu trouxe Malu no colo. Vieram tranquilos. Paramos apenas uma vez para dar de mamar. Mamaram e voltaram a dormir (com o balanço do carro)

A primeira semana foi, digamos, um pega pra capar. Tudo novo, fraldas, mamadeiras, chupetas, choros, choros, choros. Não dormi, não comi e só conseguia ir ao banheiro quando estava tudo saindo pelo ladrão. Foi um sufoco pq Maluzinha não podia chorar, então era só a pequena começar a gemer que lá ia eu pegá-la no colo.
Rodrigo foi um anjo desde o primeiro dia, sempre compreensivo com meus cuidados maiores com Malu. O único grande problema com Rodrigo era o banho. Era chegar perto da água para abrir o berreiro.

Dia 25 de dezembro Malu passou mal, chorou muito por mais de uma hora e não havia o que a fizesse parar. Acabei por levá-la ao hospital. a hernia estava encarcerada.
Consegui marcar a cirugia da pequena para o dia 16 de janeiro, mas Malu teve novas crises no dia 27 e 28. levei-a ao hospital onde os médicos colocavam a hernia para dentro e nos mandavam para casa. Porém no dia 29, depois de nova crise, eu disse ao médico que não sairia do hospital sem que Malu estivesse operada. Não queriam operá-la alegando que eram necessário fazer exames mais precisos por conta do HIV e etc. Bati o pé e disse que chamaria a policia ou quem de direito e processaria o hospital por omissão de socorro. Acabaram por internar a pequena e no dia 30, logo cedo, ela foi operada.
A cirurgia foi rápida e a recuperação da pequena foi melhor ainda. É certo que me fizeram ficar de castigo um dia a mais no hospital, por birra mesmo, pq fui informada pelas enfermeiras de que as crianças sempre tinham alta no mesmo dia da cirugia à noite. Tudo bem, passamos mais uma noite no hospital e logo cedo, no dia seguinte, voltamos para casa.

Enquanto isso Rodrigo começou tratamento com fisioterapeuta e gostou tanto que chega em casa e gosta de fazer os exercícios e é louco para andar. Engatinha muito e já fica em pé sozinho por alguns segundos. É um menino extremamente inteligente, basta mostrar a ele uma única vez e ele sai fazendo direitinho tudo. É aficcionado por limpeza, todo tequinho de poeira ele pega e traz pra mim. Gosta de conversar, de cantar e de dançar. Tem o sorriso mais lindo desse mundo e hoje cortou os cabelos. fez um escândalo memorável, mas depois que se olhou no espelho foi só sorrisos.
Rodrigo está muito ciumento da irmã, então basta eu pegá-la no colo para que ele comece a fazer tudo quanto sabe que não pode, e se joga no chão e pede colo e etc. Gosta de tomar chá na chuca da irmã, não interessa dizer que o chá dele é o mesmo, ele tem de tomar na chuca da irmã. Então estamos passando por esta fase do " minha mãe é só minha", mas estamos indo bem (eu acho rs). Hoje adora tomar banho. O dificil é tirá-lo de dentro da banheira rsrsrs.
Malu é outra menina, super tranquila e sorridente. Amanhã fará seus primeiros exames de sorologia para ver como está o tratamento. Tomou 42 dias o xarope de AZT. Agora vamos ver os resultados para saber se prosseguimos com o tratamento ou se já está negativada.
Rodrigo continua com o fisioterapeuta e vai começar com a fono. Tudo indica que o tal "retardamento" não passava de falta de estímulo.
E eu??? Cansada, mas tão feliz que já penso em, daqui uns 2 anos, começar tudo de novo rsrsrs.

Por isso eu disse que às vezes a nossa felicidade está tão perto e a gente teima em não ver. Meus filhos são duas crianças lindas e tranquilas, talvez fosse "desejo" de muitos e muitos pretendentes á adoção e já estariam em um lar há tempos, porém os entraves (suposto retardamento e HIV) afastaram os tantos possíveis interessados que vão continuar na fila esperando, esperando. E eu só posso me dizer abençoada por ter estes dois anjos comigo. Por eles terem me aceitado desde o primeiro dia e aberto seus coraçõeszinhos para uma estranha que Rodrigo chama de mamãe e Maluzinha olha fixamente com um sorrisão lindo. " - Paula Cury

9 comentários:

Mamãe feliz disse...

Parabéns Paula! Que depoimento mais lindo! Me emocionei muito lendo seu relato. Parabéns pela seus dois filhotes, que imagino, serem lindos demais! Parabéns ao Rodrigo e à Malu pela linda família que ganharam! Que Deus abençoe vcs com muita paz, saúde e alegria!
Míriam

Crystal disse...

Paula, Você é uma pessoa especial, pois só pessoas assim recebemde Deus duas benção como são os seus filhotes.A história de sua familiaé linda, e muito emocionante. Que Deus continue, derramando suas bençãos sobre vocês, e obrigado por dividir sua felicidade conosco.
Crystal

Anônimo disse...

Paula, já te conheço da comunidade Adoção um exemplo de amor (leio tudo mas ainda não faço parte) e gostaria de te dizer que te admiro muito, pois o teu amor é incondicional, raríssimo de se encontrar em seres humanos nos dias de hj. Deus te abençoe muito só por vc ser assim tão amorosa, nem que eu viva mil anos serei capaz de ser assim como vc!!
Bjos
Rose

Anônimo disse...

Paula,
Parabéns por essa atitude linda. Estou pretendendo adotar. Acabei de entrar com o processo. Estou insegura, mas quando vejo relatos como o seu fico mais encorajada para enfrentar os desafios que podem estar associados à adoçao.
Um grande abraço!
Giselle

Adenilson disse...

Parabéns Paula! Sua história é linda, que Deus continui te dando muita força e felicidade, também tenho um casal o mais velho tem 11 anos e acaçula tem 3 aninhos e é adotiva, não entramos em nenhuma fila (mais o desejo de tela era enorme)ela foi confiada a nós, um presente de Deus depois de muita oração e desejo, apesar de ter vivido minha história gosto de ouvir outras, me emociona e me faz relembrar todos os detalhes importantes que que diziam é ela a filha, é você a mãe.
Com isso tudo nós podemos afimar mãe somos nós que desejamos um filho, é facil aceitar uma gravidez. eu te adimiro mesmo sem te conhecer, seja muito feliz.

Anônimo disse...

Rodrigo e Malu,estou muito feliz por voces,fiquei muito esperançosa,apesar tudo, pois eu perdi uma batalha de uma criança de alto risco,por causa da 'FURA" da fila opu então ....A criança foi para outro casasl que não estava na fila.A minha frustração foi muito grande.;pois eu ja tenho uma especial.A minha luta comtinua se voce poder me dar informações,dicas,pois na minha cidade e muito dificil.Votoramtim e Sorocaba.Que Deus nos abençõe nesse caminho tão arduo .Teresapecora@zipmail.com.br

MAVI disse...

Paula,
Faço bacharelado em direito e tive que escolher um tema para uma determinada matéria. Claro, escolhi "adoção", e pesquisando encontrei sua história...
Por enquanto trabalho no berçário de um hospital e sei bem do que se trata esses "entraves" dos quais falou.
No futuro, quando estiver estabilizada, desejo fazer parte desse grupo de pessoas tão especias , que são os pais adotivos. Ainda tenho leite (minha filha tem 13 anos) e sempre digo que quando adotar poderei amamentar...
Parabéns pela dedicação. Felicidades!

CARLA disse...

Paula, voce é um ser humano iluminado. E certamente por isso esses dois anjinhos foram colocados em seu caminho. Seu relato é lindo, emocionante e principalmente, contagiante.
Parabéns a voce e sua linda familia.

Andre Santos disse...

Paula, como faço para te ligar? Estou habilitado para adoção.